A saúde já não enfrenta apenas o desafio de produzir informações, mas de transformar o volume crescente de dados em decisões capazes de melhorar o cuidado. Essa foi uma das questões discutidas no terceiro e último dia da Health Meeting Brasil/SINDIHOSPA 2026, nesta quinta-feira (24), no Centro de Eventos da Fiergs. A maior feira internacional de saúde do Sul do Brasil reuniu gestores hospitalares, médicos, profissionais da assistência, investidores, startups, universidades e indústrias para debater e apresentar novidades do setor.
Em Porto Alegre, esse desafio ganhou uma aplicação concreta com a integração entre sistemas públicos e privados de saúde. O tema foi discutido no 1º Summit Para Além da Interoperabilidade. O secretário da Saúde da capital gaúcha, Fernando Ritter, afirmou que o município deve consolidar ainda em 2026, após 12 anos de tentativas, essa integração. O projeto conta com R$ 10 milhões financiados pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e permitirá que profissionais consultem o histórico clínico dos pacientes pelo portal da Procempa, a partir do CPF. A estrutura também prevê o uso de inteligência artificial na identificação de riscos.
Já no painel que discutiu a integração de dados como alavanca de valor em saúde, Gabriel Dalla Costa, diretor-geral do Hospital Glória D’Or, destacou que o desafio do setor não é produzir mais informações, mas transformá-las em decisões capazes de gerar resultados. “Estamos saturados de dados e relatórios”, afirmou. Segundo ele, qualidade, governança, temporalidade e fluxo de trabalho são pontos críticos. Entre 80% e 90% do tempo de profissionais de Data Science pode ser consumido na limpeza dos dados. “Dashboard não é desfecho e dado não é valor. A decisão é o que gera valor”, disse.
No mesmo painel, Daniela Medeiros, superintendente de Provimento de Saúde da Unimed Porto Alegre, ressaltou que ainda é necessário avançar no tratamento das informações para que elas se tornem úteis à assistência. O cardiologista Marcelo Haertel Miglioranza acrescentou que a conexão entre sistemas permite acompanhar a jornada do paciente e reduzir desperdícios provocados pela fragmentação do cuidado.
O sentido do cuidado
Se a tecnologia amplia a capacidade de reunir e interpretar informações, os cuidados paliativos colocam em evidência uma dimensão que não se resume a indicadores: o sentido atribuído pelo próprio paciente à vida, à doença e à morte. Essa foi a discussão central do 2º Fórum de Ciência e Espiritualidade, que abriu a programação do dia. A psicóloga Natalia Schopf Frizzo relatou questionamentos frequentes de pacientes em cuidados paliativos sobre perdão, abandono por Deus e o que podem esperar do tempo que resta. Ela destacou a importância de acolher essas questões sem impor crenças.
Para a profissional, presença, empatia e respeito são essenciais, inclusive diante de pacientes sem religião ou ateístas. “Espiritualidade e religião se conectam, mas não são sinônimos. Nos cuidados paliativos, essa dimensão pode trazer conforto, mas também sofrimento diante de sentimentos como culpa ou necessidade de perdão. Doença não é punição”, enfatizou.
A psiquiatra Marianna Costa, do Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde da Universidade Federal de Juiz de Fora (NUPES/MG), chamou a atenção para experiências relatadas no fim da vida, como sonhos ou visões de pessoas queridas e episódios de lucidez terminal. De acordo com a especialista, essas manifestações não devem ser automaticamente associadas a quadros patológicos. O geriatra Leandro Minozzo e o especialista em dor e cuidados paliativos Gabriel Drumond Ferreira ampliaram a discussão para a formação e o cuidado dos próprios profissionais, destacando a busca de sentido, a compaixão, o autocuidado e as estratégias para lidar com ambientes marcados pelo sofrimento.
Outro destaque do dia foi a realização do fórum Projeto Internormas – Diálogos e Regulação Sanitária, que reuniu indústria e governos para discutir a convergência regulatória em favor da saúde. A atividade foi promovida pela Associação Brasileira da Indústria de Dispositivos Médicos (ABIMO).
A feira contou ainda com o 4º Fórum Nacional das ILPIs Privadas, o 5º Encontro da Cadeia de Suprimentos da Saúde, a 6ª Jornada Internacional de Segurança do Paciente, o encontro Empreendedorismo na Prática e o encerramento do 12º Superdosagem Duo Medlive.
Sobre a feira
A 4ª Health Meeting Brasil / SINDIHOSPA é realizada pela HM Brasil Feiras e Congressos e pelo SINDIHOSPA, com patrocínio da Unimed Porto Alegre, Unicred, Medlive e Sebrae.
